Dando Asas à Imaginação

Astronauta na LuaQuando assisti o pouso da Apollo 11 na Lua, aos 5 anos de idade, a música de fundo era "Assim Falou Zaraustra", trilha sonora de "2001: Uma Odisséia no Espaço", baseado num livro de Arthur Clarke. Aquela ocasião me marcou profundamente e partir daí passei a me interessar cada vez mais por ciência e tecnologia, sobretudo a exploração espacial, contribuindo para formar minha visão de mundo, cética, racional e racionalista, imunizada contra as bobagens dessa onda de misticismo e esoterismo que crassa por aí.

Alguns anos após ler sobre ciência e tecnologia, comecei a me interessar pela ficção científica, dando asas à imaginação.Na verdade, meu escritor preferido é Clarke, pelo embasamento científico com que escreve, sua capacidade de antever o que acontecerá com a tecnologia, sua visão da evolução futura da humanidade e por abordar sempre a exploração espacial. Os livros dele têm o defeito de tratar de um mundo onde não há guerras, pobreza e outros males: numa entrevista à Superinteressante, ele deu a desculpa de que não é filósofo para tratar desses temas, mas a razão real é a crença ingênua de que a ciência e a tecnologia resolverão tudo; mas este é um motivo a mais para eu gostar de ler Clarke, pois não gosto mesmo de ficção científica pessimista. Por outro lado, tais livros têm um aspecto profundo e extremamente inquietante, a provável incapacidade do homo sapiens de compreender uma inteligência extraterrestre com muito mais tempo de evolução (no sentido tecno-científico, pois a evolução biológica não é sinônimo de progresso). Infelizmente, a criatividade de Clarke acabou no fim da década de 70, quando passou a escrever continuações intermináveis e/ou colocar seu nome em livros feitos por outros autores.

Talvez você pense que acredito em OVNIs e coisas desse gênero, mas a resposta é negativa. As razões vão desde a barreira da velocidade da luz até quase todos os ETs pretensamente avistados terem a forma humana, o que é visivelmente um resquício da visão antropocêntrica do universo. Eric Hobsbawm deu uma boa explicação para tais besteiras, inclusive a onda citada acima: ao mesmo tempo que a ciência e a tecnologia nela baseada se tornaram onipresentes e imensamente poderosas, ela ficou incompreensível pelo senso comum e a experiência cotidiana por mais que os cientistas tentem explicá-la aos leigos – como reação, passe-se a crer em qualquer coisa que a ciência não pode entender pois, num mundo em que todos são ignorantes, ninguém é mais poderoso do que os outros. Acrescente-se que a ciência adquiriu um aspecto fantástico – se alguém tentar explicar a Astronomia e a Astrologia a uma que pessoa que desconhecesse ambas, é bem provável que a Astrologia fosse considerada mais verossímil –, o que dá motivo para se imaginar qualquer coisa. De fato, imaginação é algo que a ciência tem em comum com tais crendices, mas ela também requer ceticismo, racionalidade e que se formule proposições que possam ser testadas, refutadas – pensar e agir desse modo é bem mais difícil do que crer em alguma coisa, por mais tola que seja. Por fim, a tarefa da ciência não é dar sentido à nossa vida e ela tem a desagradável tendência a dizer que nosso lugar no Universo nada tem de especial, é insignificante.

A Terra vista de um ônibus espacialO contato real com alguma civilização extraterrestre pode ocorrer amanhã, daqui a mil anos ou mesmo nunca, pois se a vida parece ser comum no universo, o surgimento de uma espécie capaz de construir uma tecnologia sofisticada é muito menos provável – na Terra já viveram 50 bilhões de espécies e só uma chegou a esse ponto – e a maior parte da exibiologia é mera especulação. Porém, fico satisfeito em soltar a imaginação a esse respeito através da ficção científica e me deslumbrar com a beleza fantástica da exploração do espaço.